A mãe Patrícia (nome fictício por proteção) estava em aflição. Contida, sem verbalizar demasiado o receio, espreitava a sua cria Leonor que estava rodeada de estudantes, vestidos a rigor com traje académico. Foi fácil ouvir um respirar fundo quando percebeu que o traje não é obrigatoriamente sinal de partidas ou praxes, mas sim de conforto e acolhimento. Vindas esta manhã do Alentejo, mãe e filha chegavam cedo para entregar os documentos pessoais necessários para oficializar a matrícula na Escola de Enfermagem. Em seguida iriam visitar a casa onde a Leonor vai ficar a viver com outras amigas colocadas igualmente em Lisboa. Encontrar alojamento na capital e assegurar as despesas necessárias não é um desafio leve, principalmente quando a única gestora do orçamento está desempregada. “Ela é tudo para mim, e só contamos uma com a outra, não há mais ninguém”, afirmava com o olhar de quem antevê o ninho vazio, mas se ergue pelo orgulho da colocação da filha Leonor na primeira escolha de candidatura ao Ensino Superior. Hoje a Patrícia e a filha Leonor regressarão à terra natal, mas em breve a Leonor virá sozinha e começará um novo ciclo de quatro anos para se tornar Enfermeira.
É o primeiro dia em que a Escola abre as portas aos novos estudantes, para terminar o processo de matrículas.
São três dias que se dividem por letras do alfabeto, para que todos sejam recebidos com o mesmo tempo e organização. O processo prolonga-se o dia todo, nada falha, o pai Rafael assim o diz, “estão de parabéns por esta organização”. As equipas estão a postos desde cedo.
Divididos por diversas salas, a Escola faz-se representar pela Académica e por outros tantos estudantes que, trajados a rigor, recebem os que chegam, percorrendo o caminho desde o metro da Cidade Universitária, até ao Edifício Calouste Gulbenkian. Cartazes chamativos e alegres, grupos de ajuda, os estudantes de Enfermagem são conhecidos por gostar de cuidar uns dos outros desde que se entra na casa que os tornará enfermeiros. Em Enfermagem o traje veste-se por herança cultural, quase ancestralidade que mostrava identificação entre pares, com vista a dar ajuda e prestar apoio nos momentos de partilha, onde a chegada é o primeiro de todos. Quem o explica é o Daniel que está atualmente no 4º ano, mas honra seriamente o compromisso e o dever de olhar pelos outros. Em Enfermagem quando várias capas pretas se erguem ao ombro ou às costas, é porque se é Enfermeiro oficialmente formado, ou se está ainda a tirar o curso, como é o caso do Gonçalo, recém formado e pronto para entrar no mercado de trabalho e também ele iniciar um novo ciclo. Em todos eles há a missão de dar de volta o acolhimento que em tempos lhes foi dado.
A Sofia e a Rita são outra dupla que o comprova. Uma recebeu a outra no ano passado e hoje juntam-se, ambas, para fazer perdurar o legado. Nos grupos que são criados com o propósito de integrar os novos alunos, trazem-se adereços, sorrisos e guitarras para acompanhar a manhã com música e energia. Pelos dois andares da Escola dividem-se grupos que vão conversando e trocando experiências sobre os primeiros anos de curso e as expectativas de começar a ver a Enfermagem a ser posta em prática.
Caras sorridentes, olhares assustados, pais ansiosos e outros comovidos, há uma mistura de emoções e ritmos que vão marcando o dia. Ano após ano este é o momento em que parece que é sempre a primeira vez.
O primeiro dia que anuncia o novo começo. O novo ano letivo. O primeiro dia de tantos outros que se seguirão.