A Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Lisboa (ESEULisboa) assumiu um lugar de particular destaque na sessão solene de abertura do ano académico da Universidade de Lisboa, realizada na Aula Magna da Reitoria, com a Presidente da Escola, Patrícia Silva Pereira, a ser convidada a intervir em representação dos órgãos de direção das 19 escolas da Universidade.
A cerimónia reuniu figuras de Estado, dirigentes académicos, professores, investigadores, estudantes e outros convidados, num momento dedicado não apenas ao início de mais um ano académico, mas sobretudo com discursos reflexivos e de mergulho profundo na atualidade e no impacto dela sobre o conhecimento. Foi um evento que contou com a presença do Presidente da República, António José Seguro, juntando entre os interlocutores reflexões sincronizadas sobre o conhecimento e a relação com a Inteligência Artificial, a sede da curiosidade, o conforto de nada se questionar. Dissertou-se ainda sobre a importância da Universidade como agente do saber, que papel assume na sociedade e que apoios conta para o desenvolvimento do próprio país. Não faltaram invocações a grandes nomes da literatura, figuras inspiradoras e muitas foram as questões que ficaram sem resposta imediata.
“O valor do conhecimento, o espanto com o trivial, o comodismo e o desassossego”.
A intervenção de Patrícia Silva Pereira assumiu, assim, um significado particular para a ESEULisboa, que, pela primeira vez, participou nesta cerimónia enquanto parte integrante da Universidade de Lisboa, na sequência da integração formalizada em 30 de dezembro de 2025. A Escola tornou-se, então, a 19.ª escola da Universidade, dando continuidade a uma parceria construída ao longo de décadas e trazendo para este espaço académico uma história de 140 anos de ensino, investigação e prática em Enfermagem.
Sob o mote “O valor do conhecimento, o espanto com o trivial, o comodismo e o desassossego”, a Presidente propôs uma reflexão sobre o sentido do conhecimento e a responsabilidade individual e coletiva na forma como este é adquirido, valorizado e colocado ao serviço da sociedade. Na sua intervenção, sublinhou que o conhecimento, por si só, não determina o seu impacto: o seu valor depende da intenção e da ação humana, da relação que estabelece com valores como a integridade, a responsabilidade e o respeito pelo outro.
Para a comunidade académica, esta perspetiva coloca o conhecimento não apenas como um fim, mas como um instrumento de desenvolvimento humano e de transformação da sociedade. A Presidente destacou também a importância da presença e da relação humana na experiência universitária, num contexto marcado pela rápida evolução tecnológica e pela crescente utilização da inteligência artificial. Defendeu a necessidade de integrar estas ferramentas de forma responsável, sem perder de vista o pensamento crítico, a interação social e a dimensão humana da aprendizagem.
A reflexão estendeu-se ainda à saúde mental, à solidão e ao risco de afastamento das relações presenciais. Neste âmbito, Patrícia Silva Pereira apelou aos estudantes para que procurem informação credível, sustentada em conhecimento científico, e recorram às pessoas e aos serviços disponíveis na Universidade, incluindo os recursos de apoio à saúde mental. Dirigindo-se particularmente aos estudantes, deixou uma mensagem centrada na valorização do conhecimento através das escolhas e das ações de cada pessoa: “Apostem no amor ao conhecimento e atribuam-lhe valor pelas vossas ações.”
A intervenção terminou com um apelo à atenção ao outro, à curiosidade e à capacidade de questionar, num convite a enfrentar o novo ano académico com esperança, sentido de responsabilidade e espírito de comunidade.
Uma Universidade perante os desafios do seu tempo.
Na sua intervenção, o Reitor da Universidade de Lisboa, Luís Ferreira, sublinhou a responsabilidade das universidades na construção do bem comum e na defesa do conhecimento enquanto espaço de reflexão, rigor e pensamento crítico. Num contexto marcado pela “desinformação, pelo populismo e pela rápida transformação tecnológica”, destacou a necessidade de “encarar a inteligência artificial e os serviços digitais como instrumentos ao serviço da atividade académica e científica, sem perder de vista a capacidade humana de questionar, refletir e avaliar criticamente a informação”.
O Reitor destacou ainda o investimento da Universidade de Lisboa numa nova estrutura tecnológica, no valor de 20 milhões de euros, destinada a reforçar as capacidades nas áreas da inteligência artificial e da ciência de dados, enquadrando este investimento numa Universidade comprometida com Portugal e aberta ao mundo.
A intervenção abordou igualmente os desafios do ensino e do acesso à formação superior, incluindo os resultados do PISA (estudo internacional coordenado pela OCDE que avalia as competências de jovens de 15 anos em Leitura, Matemática e Ciências), o combate ao abandono escolar, o alojamento e o apoio à saúde mental. Neste contexto, reforçou o papel da Universidade enquanto espaço exigente, mas também humano, com oportunidades para os seus estudantes.
A Universidade como espaço de perguntas e de construção do futuro.
Também o Presidente da República, António José Seguro, colocou a Educação e o conhecimento no centro da sua intervenção, num período que classificou como marcado por profundas mudanças na forma como aprendemos, nas tecnologias que utilizamos, nas relações entre pessoas e nas expectativas colocadas sobre a Educação.
Defendeu a Universidade de Lisboa como aquela que não se limita a acompanhar o seu tempo, mas que “prepara o futuro”, sublinhando a importância de dotar os estudantes de ferramentas que lhes permitam compreender e interpretar a complexidade do mundo contemporâneo.
A importância do acesso ao ensino superior foi igualmente destacada, nomeadamente enquanto instrumento de desenvolvimento pessoal e social. A desigualdade socioeconómica e as condições de acesso à educação foram apontadas como desafios que não podem ser dissociados da discussão sobre o papel da Universidade enquanto elevador social.
Recorrendo à figura de José Saramago, único Nobel português da Literatura, e ao facto de este não ter tido possibilidade económica para estudar na Universidade, o Presidente da República deixou aos estudantes uma reflexão sobre o privilégio e a responsabilidade de frequentar o ensino superior, mas defendendo uma relação de reciprocidade entre formação, reconhecimento e capacidade de retenção de talento no país.
A Escola de Enfermagem fez-se representar no cortejo pelos Professores Doutorados: Paulo Seabra, Cristiana Firmino, Patrícia Silva Pereira, Graça Melo, Óscar Ferreira e Pedro Lucas.