A reflexão que partilho convosco resultou dos diferentes papéis que ocupei ao longo da minha vida, porque acredito que somos seres unitários, completos e o somatório de todas as experiências que temos diariamente, desde que nascemos até ao fim do ciclo da vida como a conhecemos, ou não fosse esta máxima que a enfermagem advoga.
Assim, falarei do meu lugar de Presidente da Escola Superior de Enfermagem desta Universidade, mas também do lugar de professora, investigadora, enfermeira de saúde mental, mulher, mãe de 3 e cidadã.
Articularei um conjunto de ideias que espelham preocupações, mas também esperança. Sobretudo a esperança que, como comunidade, possamos usufruir do privilégio de nos termos como força viva que pode transformar e mudar rumos.
Em jeito de roteiro desta intervenção, abordarei 3 temas principais .
1. O valor do conhecimento
2. O espanto com o trivial
3. O comodismo e desassossego
Farei ainda uma breve nota enquadradora com 2 apontamentos sobre:
- a Escola de Enfermagem
- a gestão de IES
Primeiro apontamento enquadrador:
Como Presidente da mais recente escola desta Universidade, a 19ª, uma breve menção para vos dar conta que a integração, consumada a 30 de dezembro de 2025, resultou de uma parceria antiga, consistente e duradoura. Pela primeira vez, estamos neste evento como parte inteira da Universidade.
Estamos muito felizes por isso!! Orgulhamo-nos da nossa história de 140 anos
em Lisboa e orgulhamo-nos da nossa nova família académica. Uma comunidade plural, exigente e elevada, onde a enfermagem contribuirá com o seu conhecimento, maturidade, relevância social e responsabilidade. Esta integração colocou o saber e a prática da enfermagem no maior ecossistema universitário do país. Uma Universidade contemporânea quere-se assim, arrojada, sonhadora, integradora e visionária.
O segundo apontamento enquadrador é dirigido aos meus colegas presidentes e diretores.
Tenho o privilégio de conhecer a maior parte das instituições de ensino superior públicas do país e de conhecer muito bem quem as gere. Pessoas absolutamente comprometidas com a elevação da educação superior como resposta a um país que precisa de crescer em conhecimento, em oportunidades de se viver com mais qualidade de vida; um país onde queiramos fazer a nossa vida de um modo feliz e autónomo. O subfinanciamento destas IES é conhecido, e pasmemo-nos, gerimos instituições públicas que têm de gerar as suas próprias receitas para fazer face à totalidade das suas despesas. Mas, não irei aprofundar esta ou outras dificuldades, quero só trazer-vos uma nota de testemunho da qualidade de gestores das IES públicas que temos no país e nesta universidade. Colegas, todos sabemos que transformamos água em vinho e multiplicamos os peixes para saciar o sistema. A vós, equipa reitoral, presidentes e diretores de escolas da Universidade de Lisboa, desejo que este ano seja frutífero em colaborações, parcerias, juntos e companheiros na luta dos nossos dias.
Feito este enquadramento, passarei ao cumprimento do roteiro enunciado. Como professora, investigadora e ainda como estudante que fui (na verdade é um estatuto que nunca perdemos), testemunho e partilho o entusiasmo do arranque de mais um ano letivo com todos os colegas e estudantes, particularmente com os que chegam de novo.
Aos nossos queridos e queridas estudantes quero dizer que são mesmo os agentes mais importantes na universidade e estão no centro da nossa ação. Como professores, somos pessoas que amam o conhecimento e importa como o partilhamos e qual o impacto que isso pode ter na vossa formação pessoal.
Senão, qual seria o valor do conhecimento?
E é por este tópico que gostaria de vos guiar nesta reflexão que decorre da minha vivência, dos meus valores, da feliz convivência com a fenomenologia, que me fez saber que as perguntas são as melhores respostas e que, por vezes é no paradoxo que encontramos sentido. E, ainda, esta reflexão foi influenciada pelas inquietações e notícias do mundo, por Valter Hugo Mãe e o seu mais recente livro - O século dos imbecis e, ainda, por Yuval Noah, historiador e pensador da nossa era.
1. O valor do conhecimento
Questiono
Qual o valor do conhecimento? Para que serve, afinal, o conhecimento? Que impacto tem o conhecimento nas nossas vidas, nas nossas ações e no mundo?
Pode o conhecimento garantir um mundo melhor? Por fim, pode o conhecimento tornar-nos melhores pessoas e estar do lado certo da História?
O conhecimento, em sentido lato, na verdade, é universal, no sentido que está em todo o lado, em todas as experiências que temos. Basta abrirmos o coração à fenomenalidade da vida que adquirimos conhecimento. Na universidade respiramos conhecimento organizado, sistematizado e, nalguns casos, pronto a aplicar na prática.
Mas, será que o conhecimento produz, por si só, bons frutos e tem um impacto positivo na humanidade?
A História está repleta de indivíduos cultos, inteligentes, que procuraram conhecimento nas melhores Universidades. Alguns estudaram fora e voltaram para aos seus países de origem para, com esse conhecimento, subjugarem povos e pisarem nações; certo é, também, que outros do alto da sua arrogância moral e ausência de referentes empáticos (que é uma forma de imbecilidade), desprezando até o conhecimento, sobretudo científico, governam, ditam e destroem pela sua simples e néscia palavra. Infelizmente, a história está repleta destes exemplos, em várias partes do mundo.
Chegamos então a um impasse ou mesmo um paradoxo que diria fenomenológico.
O conhecimento como potencial para exercício do bem e do mal. O que nos leva de novo à questão, qual o valor do conhecimento?
Adianto-vos a minha tese: o conhecimento, por si só, não serve para nada!
(E, se o conhecimento não serve para nada, podemos fechar este ano académico, antes mesmo de o abrir ;) ) mas deixem-me continuar.
O conhecimento não serve para nada!
O conhecimento não serve para nada, a não ser que eu queira que ele sirva.
Chegamos, então, a um ponto de entendimento de que o conhecimento, em si mesmo é nada, portanto o seu valor depende do que faço com ele.
O valor do conhecimento é atribuído por mim pessoa e não o contrário, ou seja, não é o conhecimento que me atribui valor.
Chegados aqui temos, em sentido lato:
O conhecimento é universal
O conhecimento não serve para nada
O conhecimento não atribui valor pessoal
O valor do conhecimento depende da intenção e ação humana.
O mesmo é dizer que o conhecimento precisa de ser amado para ter valor.
O amor ao conhecimento inscreve-se numa categoria especial. Não é um acumular de informação; não é a apropriação teórica; não é, sequer ter a nota máxima e passar com distinção. O amor ao conhecimento vem do coração e está na humildade de se saber que não se sabe e o que achamos que sabemos poderá ser sempre colocado em causa. O amor ao conhecimento exige um coração puro, sedento e profundamente bem-intencionado, ou seja, com virtudes e valores.
Ora, temos, então, que o valor do conhecimento está intimamente ligado aos valores humanos.
Aproximamo-nos um pouco mais de alguma clarividência de sentido provocado.
Partamos das premissas:
O conhecimento é universal
O conhecimento não serve para nada
O conhecimento não atribui valor pessoal
O valor do conhecimento depende da intenção e ação humana
O valor do conhecimento só existe na relação com os valores humanos.
Assim, diria que o conhecimento é o meio privilegiado e a maior arma para o desenvolvimento humano ou para a sua destruição (e temos assistido a essa discussão ultimamente).
Importa tomarmos uma posição enquanto cidadãos e cidadãs.
A Universidade é em si um mundo de oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional. A educação superior como elevador social é inquestionável. Mas, o que cada um de nós faz com o que sabe e como adquire esse saber pode ser a diferença entre ser um imbecil ou ser uma pessoa que ama o conhecimento e faz bom uso dele por via das suas ações, do seu empenho em ser parte de um mundo que se quer melhor, mais justo, mais equitativo, mais respeitador, mais equilibrado, um mundo em que nos imaginamos e somos, efetivamente, todos verdadeiramente iguais, reconhecidos nas suas diferenças.
2. O espanto com o trivial
O valor do conhecimento importa para a construção do futuro da humanidade. Por isso o modo como o adquirimos faz toda a diferença.
Acreditem que na universidade, procuramos as melhores estratégias formativas para construir conteúdos credíveis, validados, com a melhor evidência disponível. Procuramos o melhor método, a melhor forma de convosco construir conhecimento e futuro.
E deixo-vos aqui uma honesta confissão. Os tempos que se vivem são, para nós professores, muito desafiadores. Hoje, confrontamo-nos com a necessidade de nos mobilizarmos como comunidade para usar do melhor modo novas ferramentas, a nova tecnologia e usá-la, a favor e não contra, como promotoras do pensamento crítico. Muitos dias, parece uma tarefa hercúlea. O conhecimento nesta área está em franco aceleramento.
A desconfiança sobre o modo como se usa a inteligência artificial no ensino superior é geradora de descredibilização de um diploma do ensino superior. Esta geração não pode padecer desta maleita corrosiva da confiança, do valor e dos valores da integridade, honestidade e honra académica.
Este risco exige tomarmos uma atitude como comunidade.
Não vos trago soluções, trago a crença e a esperança de que este caminho só nos pode unir; não afastar. Acredito que é um caminho que tem de nos aproximar enquanto comunidade, sobretudo a díade professor-estudante. E como? Estimando o espanto com o próximo como catalisador do valor conhecimento.
Deixem-me deter um pouco nesta ideia de conhecimento e do espanto.
No dia 12 de agosto de 2026 o país mobilizou-se para olhar para cima. Um eclipse
solar!
Um fenómeno; um evento fenomenal fez-nos olhar na mesma direção.
Olhei à minha volta e vi solidariedade, sorrisos entre desconhecidos, abraços entre amigos, beijos, carícias, como se um poema se estivesse a escrever no ar, naquele preciso momento. Se fosse poeta, tinha escrito um poema; como sou só um ser comum, vi uma espécie de poema desenhar-se à minha frente por imagens e sensações. (Deixo essa extraordinária tarefa da escrita para o poeta, um ser que acredito iluminado).
Confesso que estes momentos me emocionam. As multidões em torno de uma mesmo causa ou deslumbramento, suscita-me algo primário. Não serei única, certamente, muitos se emocionarão em momentos em que a solidariedade é mais forte do que as diferenças. Algo maior nos une e nos deixa cair as defesas.
Neste dia, sentei-me na areia e olhei para cima; olhei à volta e olhei para dentro, procurando perceber o que sentia, porque a grandiosidade de um evento lembra-nos da nossa pequenez perante uma Natureza tão maior que nós.
Esta experiência fez-me voltar às coisas mesmas (como diria Husserl) e, num exercício de humildade, perceber como o espanto nos faz falta no dia-a-dia.
Precisamos, absolutamente, de mais espanto! Não acontecem fenómenos desta natureza todos os dias, é certo, mas o espanto de que vos falo é o espanto que vislumbra o extraordinário naquilo que é comum, naquilo que nem notamos de tão familiar que se tornou. O apelo que vos trago hoje é de um espanto como forma de atenção ao próximo, de presença física e proximidade humana.
O espanto precisa de corpos fisicamente presentes, interativos por meio dos sentidos da visão, da audição, do toque do paladar, do olfato.
A Universidade de Lisboa como comunidade tem esta força!
A atenção é a mais rara e pura forma de generosidade, nas palavras de Simone Weil.
Precisamos de generosidade! Sim, importa a generosidade, a atenção e viver a presença com espanto de descobrir e estar com o Outro.
Mas que condições podem favorecer o espanto?
Arriscaria dizer que são sem dúvida a presença, a abertura, a tolerância, a disponibilidade, o acolhimento das diferenças, não porque temos de ser todos iguais, mas porque temos o direito à realização pessoal, independentemente das nossas particularidades.
Importa que não desperdicemos os benefícios percebidos de estratégias formativas não presenciais, integrando-as de uma forma harmoniosa, complementar e integrada. No entanto, a aquisição de competências é mais eficaz por meio da interação social, e digo, no envolvimento social construído no quotidiano vivencial académico, ou seja, no face-a-face, no contacto pessoa-a-pessoa.
E, acredito profundamente, que não existe nenhum meio de comunicação à distância ou rede social que se compare, ou substitua a riqueza da interação humana em presença. O contacto em direto, não é o contacto direto! Esse, só acontece num momento de presença absoluta.
Os ambientes formativos devem ser promotores do pensamento crítico. Por um lado, formar pessoas com competências humanas, técnicas e científicas e, por outro, potenciar a capacidade de ser cidadão/ã ativo/a e solidário/a num mundo em acelerada mudança.
Noreena Hertz, economista londrina, no seu livro de 2020 – “O século da solidão” – fala num destino de mentes e corpos solitários e define solidão como um estado interior e existencial – pessoal, social, económico e político. Ors, esta é uma definição mais lata do que a habitual, pois para além de incluir o sentimento pessoal de nos sentirmos desligados dos que nos são significativos, inclui também o sentimento de nos sentirmos desligados da vida comunitária, das políticas e dos governantes. Consequentemente, sentimo-nos excluídos, isolados, desligados e sós. Ora, entramos no terceiro e último tópico desta intervenção.
3. O comodismo e o desassossego
Somos seres inacabados e incompletos. Diria, eternamente incompletos e, por isso, a vida nos oferece oportunidades de nos completarmos na relação com os outros, com os animais e com o ambiente.
A solidão, o isolamento e a própria apatia por se sentir só a existir são indicadores de risco em saúde mental.
O permanente contacto à distância tem-nos iludido que estamos mais próximos, e menos sós, mas os dados apontam para valores baixos na perceção de saúde mental das pessoas e, particularmente, dos estudantes do ensino superior. E questiono? Como chegámos aqui, como chegámos ao ponto de uma pessoa se sentir mais só em comunidade do que uma outra numa região do país mais isolada e sem acesso a tantas interações? Como se sentem as pessoas tão sós, estando tão rodeadas de gente?
Sem dar uma resposta, porque ela não existe de forma simplista, grosso modo, diria que o comodismo tem estado para a saúde de mental, como o sedentarismo para a saúde física. E tem sido altamente lesivo. Relaxámos no verdadeiro contacto interpessoal, quando preferimos estar à distância ao invés de estar presentes; quando entregamos à IA os nossos anseios e procuramos alguém que nos “escute”; quando fazemos do virtual o natural; quando cedemos à preguiça de nos deixar estar, em vez de agir ou ir, diria mesmo desassossegar.
A nossa saúde mental coletiva e individual está ameaçada pelo falso conforto e facilidade que experimentamos com as ferramentas que hoje temos ao nosso dispor.
Defendo o uso da máquina, não a máquina que nos usa! Temos de ser cautelosos e inteligentemente voltar ao mais natural e puro que tem as relações em presença.
Tem sido com particular interesse que tenho acompanhado o aumento da informação à volta da temática da saúde mental, na comunicação social, e particularmente nas redes sociais por influenciadores.
Voltamos à questão do conhecimento. Quem divulga, o que divulga, qual a verdadeiro interesse de quem divulga? Temos tido programas extraordinários, verdadeiramente esclarecedores e que contribuem para a literacia em saúde.
Passámos a falar de saúde mental, isso foi bom, diria, mesmo muito bom. De certo modo, podemos dizer que tem vindo a ser normalizado um tema que durante anos foi tabu, sobretudo pelo estigma associado.
Costumava dizer em sala aula aos meus estudantes que um dia gostaria que fosse tão natural dizer que se ia à terapia como se dizia que se ia ao ginásio. Não porque tivesse de ser moda, mas porque representava que o estigma e o julgamento tinham sido combatidos. Normalizar os temas relacionados com a saúde mental é contribuir para a saúde integral, não duvido.
Todavia, se por um lado temos hoje comunicação bem-intencionada (conhecimento de valor e com valor humano); por outro temos uma proliferação de mensagens desinformadas e falaciosas que só servem o interesse de quem quer descredibilizar a ciência. Tem-se assistido a uma banalização das perturbações mentais, nomeadamente do autodiagnóstico; e, consequentemente, à proliferação de soluções avulso e de pseudossoluções como complementos alternativos duvidosos, ligados a um mercado charlatão.
Isto só se combate se nos desassossegarmos.
E para terminar, dirijo-me em particular a todos os estudantes, procurem informação credível, fundada em conhecimento científico e procurem pessoas reais que vos possam ouvir.
A universidade agrega um conjunto de recursos que têm à vossa disposição. Na dúvida, ou sem dúvida, façam uso das pessoas e dos serviços, nomeadamente de saúde mental.
Acreditamos no potencial das novas gerações que queremos sempre mais felizes que as anteriores.
Apostem no amor ao conhecimento e atribuam-lhe valor pelas vossas ações.
Espantem-se todos os dias com as pessoas e coisas banais.
E desassosseguem-se como resposta ao comodismo.
Com ânimo, com esperança e sobretudo com a convicção que juntos fazemos melhor, desejo um excelente ano letivo.
Patrícia Silva Pereira - Presidente da Escola de Enfermagem da ULisboa