No Dia Internacional da Pessoa Idosa, celebramos mais do que a passagem do tempo, as memórias vivas, a profundidade de vidas que foram construindo o mundo e moldaram as pessoas que hoje somos.
Desafiámos a docente, Lina Antunes, um estudante finalista em estágio clínico e militar habituado a missões, Pedro Silva e uma enfermeira recém-licenciada, Filomena Barras, a refletir sobre este dia. Pouco tempo depois viriam as respostas, os textos e vídeos. Todos eles reflexos de quem se move por paixão.
Para quem trabalha diariamente na área da saúde, a pessoa idosa deixa de ser apenas uma estatística e passa a ser a razão de ser de uma vocação.
O idoso é o público de eleição de quem descobre na maturidade do outro a razão de ser do seu próprio caminho.
A visão da Enfermeira Filomena, antiga estudante de Enfermagem.
“Para quem já está no terreno — e para quem guarda a memória recente dos tempos de estudante —, cuidar do idoso é uma das experiências mais profundas e transformadoras da profissão. Cada consulta, cada penso feito devagar ou cada gesto de conforto revela histórias de trabalho, sacrifício, amor e resiliência. Como partilham frequentemente no seu dia a dia, ouvir um simples "ai, que bom que é você hoje a cuidar de mim" ou um "tem uma mão tão leve", traz a confirmação plena de que cuidar vai muito além de tratar da doença: é validar a dignidade e a história de quem ali está”.
A reflexão do Pedro, militar e estudante finalista.
Aos 30 anos, combinando a disciplina e a vivência do serviço militar com a maturidade de quem decide voltar aos estudos e afinar a sua grande paixão pela Enfermagem, o olhar do Pedro sobre o idoso tem uma dimensão singular. Entende que a força não reside apenas na juventude ou na capacidade física, mas sim na resiliência emocional e no carácter refinado pelos longos anos de vida. Para ele, o idoso representa a máxima expressão do dever cumprido e da história viva, merecedor do mais profundo respeito e de uma escuta atenta que honre o seu percurso. “Perder um idoso é como perder um pedaço de história. Até porque eles ajudaram a escrevê-la”, reflete.
Cruzar Mundos: A Ponte entre Gerações.
É imperativo falar às gerações jovens que hoje se forma nas Escolas, sobre a aprendizagem com a pessoa idosa. É , porventura, o cruzamento de mundos que traz ao Pedro e à Filomena a paixão por trabalharem com este público. Se por um lado, lhes acrescenta mundo, absorvendo lições de vida e novas perspetivas; por outro, essa mesma escuta e presença que dedicam, oferece ao mais velho algo absolutamente vital para a sua saúde mental e emocional: o sentimento de utilidade, o reconhecimento do seu valor e a certeza de que há um legado que continua a importar.
Cuidar do idoso é, em última análise, cuidar do próprio futuro. O compromisso de trabalhar e afinar este olhar para os idosos foi o que pedimos a uma das grandes impulsionadoras da formação nas Ciências Sociais. Professora de Antropologia e Sociologia e uma das responsáveis, com outros docentes e estudantes da nossa Escola, Lina Antunes fecha hoje o tema com uma dissertação que poderia constar das suas aulas ao 1º ano.
Mágicos na História, Invisíveis na Dor.
Neste dia que se assinala, o Dia Internacional dos Idosos, acredito que a idade é muito mais do que um número e que por isso os mais velhos, as mais velhas, são e deveriam ser para todas as pessoas um modelo, uma fonte de atenção, de respeito e de valorização.
Basta que possamos começar por pensar não só na forma como os nossos mais velhos nos receberam quando nascemos, como tivemos a oportunidade de construir raízes pelo que nos ensinaram, no que vamos tendo de oportunidades em ir aprendendo sempre com as suas experiências, com as suas preocupações, com as melodias, com os silêncios, com o embalar e com as experiências desses outros mais velhos.
E de facto, os mais velhos são mágicos. Mágicos a contar-nos as histórias do seu passado e a dourar mesmo nas maiores dificuldades. São hábeis, por vezes, a esconder-nos a sua solidão, o seu isolamento.
São hábeis a esconder-nos que estão e vivem na pobreza.
São hábeis a esconder-nos, por vezes, que sofrem de abuso e de negligência, que têm fome.
Por isso, hoje, socialmente, temos sobretudo o dever de cada um, de cada uma de nós contribuir para aquilo que em ciências sociais, que na sociologia, na demografia, se designa de idade prospetiva.
Devemos contribuir para essa nossa idade prospetiva, mas também, e muito, para a dos outros. Temos o dever de contribuir com a nossa formação e com uma formação plural e rica, com o nosso capital humano, para dar mais oportunidades de viver numa sociedade com os mais velhos. E que essas oportunidades sejam de enriquecimento mútuo e de empoderamento também destes cidadãos maiores.
A formação de enfermagem, alicerçada em valores de respeito, de partilha, de criação e de transmissão de conhecimentos, de valorização social, confere-nos o desígnio cívico de proteger os mais velhos.
Porque temos uma formação reconhecida pela qualidade científica, assente numa multiplicidade de saberes, com impacto social, somos de decerto capazes de contribuir para derrubar estereótipos e preconceitos que, infelizmente, em alguns lugares, ainda impede de dar valor a quem tem mais anos.
É com a história, é com a sociologia, com a investigação, com a ética, é com a psicologia, com a relação, é com a enfermagem, sempre nas suas diferentes áreas de especialização, é com as famílias, com as instituições, com o voluntariado. É com cada um e com cada uma de nós que vamos orgulhar-nos de fazermos parte de uma sociedade que, estando envelhecida, pode e deve dar dignidade e visibilidade à continuidade da participação dos nossos mais velhos.
Um dia feliz para todos os idosos.