O dia 5 de outubro é uma data de enorme significado.
Em Portugal, assinala-se a Implantação da República, um dos momentos mais marcantes da história nacional.
Mas é também o que celebra o Dia Mundial do Professor, data criada pela UNESCO, em 1994, para reconhecer o papel fundamental dos docentes na construção de sociedades mais desenvolvidas.
Cruzamos, assim, duas dimensões em uma só data: a memória de uma transformação profunda na sociedade portuguesa e o reconhecimento daqueles que, através da Educação, causam essa mesma transformação profunda.
Mas que impacto têm os professores na vida dos estudantes?
Seria redundante dizermos que ensinar é apenas transmissão de conhecimento.
O Professor é o que dúvidas, desafia certezas, desperta potencialidades e ajuda a construir percursos profissionais, é aquele que toca nos percursos pessoais.
É possibilitar momentos de sucesso, desafiar a dificuldade, criando a inquietação do saber, ou das escolhas.
É ver antes do próprio estudante aquilo que ele ainda não descobriu em si próprio.
É saber quando é preciso explicar, quando é preciso escutar, quando é preciso simplificar, quando é necessário exigir mais.
No ensino superior, e particularmente na formação em Enfermagem, esta missão ganha uma dimensão ainda mais profunda.
O professor não se limita a transmitir conhecimento científico ou técnico.
Acompanha jovens adultos numa das fases mais transformadoras das suas vidas, contribuindo para o desenvolvimento de competências, valores, maturidade, autonomia e sentido de responsabilidade.
É também nesta fase que muitos estudantes começam a perceber a dimensão da profissão que escolheram.
Serão, amanhã, profissionais responsáveis por cuidar de pessoas nos momentos de maior vulnerabilidade.
Terão de saber interpretar conhecimento científico, tomar decisões, agir com rigor e responsabilidade, mas também apurar os sentidos e o que nem sempre é explicito.
Por isso, ensinar Enfermagem é ensinar a cuidar do todo, conseguindo perceber-se a si próprio.
E aprender? Aprende-se com professores que demonstram que o rigor não é incompatível com a empatia, que a exigência pode caminhar lado a lado com a proximidade e que o conhecimento só cumpre verdadeiramente a sua função quando é colocado ao serviço das pessoas.
Não serão então os verdadeiros professores aqueles que se tornam mentores?
Figuras de referência capazes de transmitir a maturidade e experiência, mas abrir espaço à própria dúvida como sinal que é possível sempre evoluir mais.
E assumindo o papel de mentores não significa que vão dizer que caminho escolher.
Vão sim acompanhar, dar linhas orientadoras e ferramentas. E, sobretudo, ajudar cada estudante a ganhar confiança suficiente para encontrar a autonomia.
A verdadeira missão do professor está, talvez, neste equilíbrio:
Acolher sem prender, orientar sem decidir, proteger sem limitar e ensinar sem retirar ao outro a possibilidade de descobrir o seu próprio caminho.
É precisamente neste contexto que ganha especial significado a escolha realizada pelos estudantes finalistas, no passado ano letivo dos seus professores padrinhos. Uma escolha que ultrapassa a competência académica e representa o reconhecimento genuíno daqueles que mais marcaram um percurso.
Os estudantes finalistas do Curso da Licenciatura em Enfermagem 2022-2026 (CLE) escolheram os Professores Anabela Mendes e Hugo Martins como os padrinhos da cerimónia de finalistas.
O mesmo é que dizer que foram os eleitos dos afetos dos estudantes.
Duas figuras com percursos e personalidades distintas, mas unidas por um ponto comum: a capacidade de estar presente.
Professores disponíveis para ouvir, ajudar a resolver, simplificar e encontrar respostas, participam em diferentes momentos da vida académica e sempre mantiveram uma relação próxima com os estudantes, contribuindo para que a Escola seja mais do que um espaço de aulas.
Seja uma comunidade.
Uma segunda Casa.
E essa ligação tornou-se particularmente evidente na cerimónia de finalistas.
Entre abraços, emoções e despedidas, era impossível não perceber a relação construída ao longo dos anos.
Muitos dos finalistas procuravam ambos enquanto figuras de referência que acompanharam o seu crescimento.
A emoção de quem também percebe que aquele momento não representa apenas o fim de um curso, mas o fim de uma etapa comum. Porque quando um estudante termina a sua formação, também o professor olha para trás e reconhece um caminho terminado.
No caso do Professor Hugo Martins, essa relação com os estudantes ganha ainda um significado particular, já que o próprio foi igualmente aluno de Enfermagem, vivendo na residência académica e percorrendo os mesmos espaços e experiências que hoje fazem parte da vida dos estudantes.
Durante a cerimónia dos finalistas, emocionou-se ao cantar as serenatas, revivendo memórias de um tempo que também foi seu. E aquele momento tornou-se particularmente simbólico: Hugo Martins, agora professor, viveu com emoção um ritual que também foi seu enquanto aluno, ao lado de uma nova geração de estudantes que estava prestes a iniciar o seu caminho profissional.
Já a Professora Anabela Mendes representa, para muitos estudantes, uma figura basilar e agregadora. Uma presença que assegura, orienta e protege. Que resolve, encontra respostas e garante abrigo quando surgem dificuldades. Alguém a quem se recorre quando é necessário encontrar uma solução, ultrapassar um obstáculo ou simplesmente sentir que existe uma pessoa disponível para ouvir. Presença quase maternal, que combina firmeza, cuidado e proximidade, a Professora Anabela simboliza assim duas formas diferentes de exercer a docência.
Quando questionados sobre o significado de ser professor, Hugo Martins e Anabela Mendes deixaram duas reflexões que ajudam a compreender a essência desta missão.
Anabela Mendes: “Ser Professora é um exercício quotidiano, que se faz e acontece entre pessoas. É fazer de cada momento um encontro de saberes, de competências e de emoções. É assumir a missão de impulsionar talentos e subsidiar o potencial de cada estudante. Vai muito além de partilhar conhecimento, importando saber escutar as suas dúvidas e preocupações, e estimular a componente motivacional de cada estudante. A felicidade acontece na possibilidade de ajudar o estudante a superar, com conforto, os desafios e na construção da sua confiança”.
Hugo Martins: “Ser Professor é acreditar diariamente no potencial de cada estudante, mesmo quando ainda não o reconhecem. É saber dar colo nos momentos de dúvida, mas também desafiar a ir mais longe, a pensar melhor e a ser melhor. Entre conquistas e dificuldades, a missão é acompanhar, lado a lado, a transformação de estudantes em profissionais competentes, reflexivos e humanos, sem nunca abdicar da exigência nem da proximidade que o cuidar exige”.
As palavras de ambos traduzem aquilo que tantos estudantes reconhecem diariamente: a docência é uma profissão construída através da relação humana.
E talvez seja precisamente aqui que encontramos o verdadeiro significado do Dia Mundial do Professor.
Esta não é apenas a data da celebração da profissão, mas a reflexão sobre a importância, o valor e a responsabilidade de quem escolhe ensinar.
Que responsabilidade tem alguém que recebe, todos os anos, jovens que estão a começar a construir a sua vida adulta?
Que responsabilidade existe quando esse professor sabe que, dentro de alguns anos, aqueles estudantes estarão a cuidar de outras pessoas? Que importância pode ter uma palavra, ou uma lição na construção de um futuro profissional?
Na Enfermagem, estas perguntas ganham uma dimensão ainda maior. Porque o professor pode ser uma das primeiras grandes referências profissionais.
Mas também uma das últimas, antes de ver um estudante sair do ensino superior. Professores e padrinhos como a Anabela Mendes e o Hugo Martins são também aqueles que sabem que chegou a altura de deixar partir.
Neste 5 de outubro, enquanto Portugal assinala a Implantação da República e o mundo celebra aqueles que dedicam a sua vida à Educação, celebramos também os professores da Escola de Enfermagem da Universidade de Lisboa.
Neste Dia Mundial do Professor, celebramos quem ensina.
A todos os professores que cumprem este propósito, o nosso aplauso.