A Ciência no centro dos desafios globais da saúde

Edifício Artur Ravara

 A 3.ª Conferência Internacional do CIDNUR reúne especialistas nacionais e internacionais para refletir sobre o futuro da Enfermagem, da investigação e dos cuidados de saúde Investigação, conhecimento científico e colaboração internacional para transformar a forma como cuidamos, ensinamos e respondemos aos grandes desafios da saúde. 

É com este propósito que a Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Lisboa (ESEULisboa) recebe a 3.ª Conferência Internacional do CIDNUR – Nursing Trends: Research for a Better Health – subordinada ao tema “Wellbeing and sustainability: nursing for global challenges”. 

Mais do que um encontro científico, a Conferência afirma a investigação em Enfermagem como uma força essencial para transformar os cuidados, desenvolver o ensino e contribuir para sistemas de saúde mais preparados para responder aos desafios de um mundo em profunda mudança. 

Ao longo da manhã, diferentes palestrantes cruzam-se numa mesma questão: como pode a Ciência ajudar-nos a cuidar melhor das pessoas e a construir sistemas de saúde mais sustentáveis? 

A sessão de abertura encontra nesta pergunta um dos seus principais pontos de partida. 
Mieke Deschodt, investigadora do Department of Public Health and Primary Care da KU Leuven, na Bélgica, e com trabalho na área da Geriatria, aborda “The Essential Role of Nursing Research in Global Health Challenges”, colocando a investigação em Enfermagem perante a dimensão global dos atuais desafios da saúde. 

A sua intervenção sublinha que não basta produzir conhecimento: é necessário questionar se estamos a fazer as perguntas certas, se conseguimos transformar as descobertas em prática e se a evidência chega efetivamente aos sistemas e às pessoas. Da doença à pessoa: uma nova forma de pensar os cuidados 

Na sua intervenção, Mieke Deschodt chama a atenção para uma realidade cada vez mais complexa, onde as sociedades são mais globais e semelhantes entre si, as pessoas trabalham até mais tarde, as desigualdades tendem a ficar mais acentuadas e os cidadãos cada vez mais informados e exigentes. Ao mesmo tempo, os diagnósticos e as doenças, colocados em gavetas gerais de diagnósticos, obrigam a uma personalização a Inteligência Artificial introduz novas possibilidades e iguais desafios. 

Neste contexto, a Enfermagem pode trazer uma mais-valia decisiva: olhar para a pessoa para além da doença. O conceito de wellbeing assume, por isso, particular relevância. Mais do que perguntar como tratar uma determinada doença, importa perguntar como pode cada pessoa viver melhor. É uma mudança de perspetiva que coloca a pessoa — e não a doença — no centro do cuidado e que exige também repensar a forma se investiga e se  organizam os sistemas de saúde. 

Uma das ideias centrais, deixadas pela investigadora, prende-se precisamente com a necessidade de ultrapassar aquilo a que chamou “silo thinking”: a tendência para olhar para cada problema de saúde de forma isolada, como se cada doença pudesse ser tratada num compartimento próprio e aplicável a todos da mesma forma. 
A resposta? Passará por integrar esses diferentes “silos” num sistema capaz de olhar para a pessoa na sua totalidade. 

Mas a produção de conhecimento, por si só, não chega. A investigação deve colocar perguntas relevantes, produzir evidência de qualidade e, sobretudo, garantir que essa evidência é implementada e não ficar apenas em paper. 

A própria implementação das metodologias e descobertas científicas continua a ser um dos grandes desafios dos sistemas de saúde. É também neste ponto que a sustentabilidade ganha uma dimensão humana. Para Mieke Deschodt, hoje é tão importante manter os enfermeiros como contratar novos profissionais, o que coloca a intervenção nos locais de trabalho, a equidade, a inovação e a qualidade de vida dos profissionais no centro da discussão. "Não é possível exigir cada vez mais aos sistemas de saúde sem cuidar das pessoas que neles trabalham", refere, . “A colaboração entre pessoas e partes não pode ser um luxo, mas uma necessidade”, foi uma das ideias fortes deixadas pela investigadora, defendendo a necessidade de ligar evidência, pessoas e sistemas e de abandonar a lógica de simplesmente exigir que os sistemas de saúde façam mais e mais depressa. 

 

Investigar para responder às perguntas que a sociedade coloca.

Esta ligação entre investigação e transformação está também no centro da intervenção do Vice-Presidente da Escola de Enfermagem, Paulo Seabra. 

Perante alterações demográficas e climáticas, com as desigualdades, transformações tecnológicas e realidades sociais contrastantes, a discussão sobre o futuro da profissão não pode limitar-se à própria profissão. É necessário identificar questões de saúde que permanecem pouco percetíveis, compreender as situações de vulnerabilidade e perceber de que forma a investigação pode contribuir para respostas concretas. 

 

Investigar, para quê e para quem? 

É a pergunta essencial para o Professor Paulo Seabra que entende que a investigação deve seguir linhas verdadeiramente relevantes, ouvir as pessoas e ir ao encontro das suas necessidades. Na Enfermagem, esta proximidade assume uma importância particular: "a relação direta com as pessoas e as famílias permite transformar o quotidiano em conhecimento e o conhecimento em cuidado", reforçou. 

É também desta proximidade que podem nascer novas perspetivas, capazes de ultrapassar fronteiras e estabelecer pontes entre o local e o global. 

Como pode a Enfermagem dialogar mais com os doentes, com a sociedade e com o mundo? E que papel cabe aos estudantes contribuir para este processo? A resposta passa por compreender a investigação não apenas como uma área de estudo, mas como uma forma de abrir portas, explorar conhecimento, questionar, duvidar e construir novas pontes. 

 

Cinco anos de CIDNUR: uma comunidade científica em crescimento.

A Conferência marca também um momento importante na história do CIDNUR, que assinala cinco anos de existência. 

Para a Professora e coordenadora do CIDNUR (Centro de Investigação, Inovação e Desenvolvimento em Enfermagem de Lisboa), Andreia Costa, estas Conferências são uma expressão do percurso e crescimento de uma comunidade científica que envolve hoje cada vez mais enfermeiros da Escola, mas também de outras instituições, assim como estudantes de mestrado e doutoramento.
Grupo que reúne atualmente cerca de 300 investigadores e 60 projetos de investigação,  o CIDNUR reflete uma aposta crescente na produção de conhecimento científico em Enfermagem e na saúde global. 

Os números não a desmentem, só em 2025 foram publicados 89 artigos científicos indexados na Scopus, enquanto a revista "Pensar Enfermagem" passou também a estar indexada nesta base de dados de referência.
Muito mais do que produção científica, os números traduzem, para a Coordenadora, pessoas. "Por detrás de cada projeto, de cada publicação e de cada resultado estão pessoas, equipas, parceiros e muitas centenas de horas de trabalho", referiu. É esse percurso coletivo que permite colocar a investigação em Enfermagem num patamar de qualidade e excelência.
Andreia Costa sublinha ainda que a escolha do tema desta edição da Conferência responde a um contexto que é hoje inevitável abordar. 

Uma Ciência que atravessa fronteiras.


A dimensão internacional do programa traduz esta mesma ambição. 

A Conferência reúne investigadores e especialistas de instituições de referência em diferentes áreas da saúde e da Enfermagem, criando um espaço de encontro entre Ciência, prática clínica, educação, políticas públicas e participação dos cidadãos.
Entre os convidados está Marcelle Miranda da Silva, Professora Associada da Escola de Enfermagem Anna Nery, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que traz para o debate a relação entre sustentabilidade e políticas públicas de saúde. 

A dimensão prática e organizacional dos cuidados estará também representada por Susana Ramos, Enfermeira Diretora da Unidade Local de Saúde de São José, enquanto Cristina Saraiva, Chefe de Divisão de Saúde da Câmara Municipal de Odivelas, acrescenta a perspetiva da saúde em contexto local e comunitário.


Na mesa-redonda dedicada ao envolvimento dos cidadãos e aos sistemas de saúde sustentáveis, Joyal Miranda, Professora Associada da Daphne Cockwell School of Nursing da Toronto Metropolitan University, e Stefanie Praxmarer-Fernandes, consultora da Organização Mundial da Saúde para Enfermagem e Sistemas de Saúde, aprofundam o papel da Enfermagem na construção da educação, da prática e das políticas de saúde.
 

A diversidade de especialistas traduz, assim, uma ideia central: os grandes desafios da saúde não podem ser respondidos a partir de uma única área do conhecimento.
É precisamente essa visão interdisciplinar que se prolonga até ao final da Conferência, com a participação de Maria Luísa Queiroz de Barros, Professora Catedrática da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, e de Isabel Fernandes, Professora Jubilada e Professora Catedrática de Literatura Inglesa da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e membro do Conselho de Cidadãos do CIDNUR. A presença destas duas académicas reforça a importância de compreender a saúde e o cuidado também através das pessoas, das suas experiências, dos seus comportamentos, da cultura e da sociedade em que vivem.


Conhecimento que se transforma em cuidado.


Ao longo da Conferência, investigadores da Escola de Enfermagem continuam a apresentar projetos que mostram, na prática, como a investigação pode responder a problemas concretos e produzir inovação com impacto na vida das pessoas: da utilização da realidade virtual nos cuidados obstétricos ao apoio à saúde mental de jovens adultos com cancro; da parentalidade positiva e educação não violenta à prevenção do assédio sexual em contexto escolar; da intervenção na dependência de substâncias aos cuidados paliativos em oncologia no eixo Portugal-Brasil.
São projetos que revelam uma Enfermagem capaz de antecipar necessidades, testar novas soluções, avaliar resultados e transformar conhecimento em melhores cuidados.

 

 

plateia com oradores