Será que queremos um mar com mais plástico do que peixes?

É uma preocupação real e para a qual pedimos consciência. Afinal hoje, 5 de junho, celebra-se o Dia Mundial do Ambiente, uma data instituída pelas Nações Unidas que comunica a sensibilização e ação global em prol da proteção do nosso planeta. Num planeta que nos grita face à intervenção humana, este pode ser um marco histórico de transformações geográficas e efeitos socioeconómicos drásticos, mas nada positivos. Não, não alcançámos boas metas de sustentabilidade, alcançámos apenas o estado imediato de emergência. 


O Mote para 2026: "Now For Climate"
Esta urgência não é alarmismo nosso, está identificada pela Organização das Nações Unidas e por isso o mote global para o Dia Mundial do Ambiente deste ano foca-se expressamente na "Ação Climática" (sob o apelo #NowForClimate). Este ano a necessidade crucial passa pela recuperação e sustentabilidade dos ecossistemas, o combate à desertificação e a resiliência à seca. O investimento em soluções baseadas na natureza são os únicos caminhos possíveis para garantir que as próximas gerações herdem um planeta habitável.
De acordo com os dados mais recentes das Nações Unidas, do programa europeu Copernicus e da Organização Meteorológica Mundial (OMM), estes são os indicadores macro mais alarmantes dos danos provocados à escala global. 
Vamos falar de números?


1. Aquecimento Global e Atmosfera

  • +1,43 °C: Foi o aumento na temperatura média global. O ano de 2024 bateu todos os recordes históricos (ultrapassando os 1,5 °C de aquecimento) e a tendência mantém os últimos 11 anos como os mais quentes alguma vez registados.

  • 91%: É a percentagem do território global que já regista temperaturas persistentemente acima da média histórica.

  • 54,6 mil milhões de toneladas: É o volume de gases com efeito de estufa. A concentração de dióxido de carbono atingiu o nível mais elevado dos últimos 2 milhões de anos.

  • Mais de metade do Produto Interno Bruto (PIB) mundial depende diretamente da natureza, o que significa que degradar o ambiente é também colapsar as bases da nossa subsistência e economia.

2. Oceanos e Gelo em Colapso

  • 90%: É o valor do excesso de calor gerado na Terra que acaba absorvida pelos oceanos. O aquecimento das águas profundas duplicou nas últimas duas décadas, destruindo ecossistemas marinhos;

  • 9 em cada 10 zonas oceânicas globais sofreram pelo menos uma onda de calor marinha severa no último ano;
    Piores níveis relativos à extensão de gelo marítimo no Ártico e na Antártida desde que começaram as observações espaciais na década de 1970. 

3. A Crise do Plástico e Poluição

  • +460 milhões de toneladas: É a quantidade de plástico novo produzida anualmente no mundo; 

  • 50% desse volume é destinado a plástico de uso único;

  • 9%: É a taxa real de reciclagem de todo o plástico gerado a nível mundial;

  • 90% do plástico acaba em aterros, incinerado ou disperso na natureza;

  • 75 a 199 milhões de toneladas: é o plástico acumulado atualmente nos oceanos. 

  • 8 a 11 milhões de toneladas é o que entra anualmente de plástico nos Oceanos;

  • 100.000 mamíferos marinhos: É o número mínimo de mortes anuais registadas de animais marinhos devido a asfixia, ingestão ou aprisionamento em detritos plásticos.


4. Impacto Humano Prático

  • 87,8 milhões de pessoas: número de pessoas afetadas diretamente por desastres naturais relacionados com o clima (cheias, secas severas, tempestades tropicais e incêndios florestais);

  • 295 km/h: Foi a velocidade máxima alcançada por furacões recentes (intensidade amplificada diretamente pelo sobreaquecimento das águas do Atlântico e das Caraíbas);

  • 1 mil milhões de toneladas por ano em 2050 é a previsão para produção de plástico, ano em que o peso do plástico nos oceanos poderá superar o peso total de todos os peixes do planeta.


O que o nosso olhar enquanto Eco-Escola de Enfermagem nos diz sobre o nosso maior doente.
O nosso planeta enfrenta um triplo diagnóstico: alterações climáticas aceleradas, a perda severa de biodiversidade e poluição descontrolada. O uso contínuo e massivo de combustíveis fósseis que tem levado ao aquecimento global, as sucessivas consequências dos fenómenos meteorológicos extremos, desde secas a tempestades e inundações catastróficas que desalojam comunidades inteiras e destroem a agricultura. A desflorestação contínua e a destruição de habitats naturais comprometem aquilo que é o alicerce básico para a existência da vida. 
Face a este cenário, o papel das instituições de ensino torna-se determinante para moldar mentalidades. Em Portugal, o programa Eco-Escolas, coordenado pela Associação Bandeira Azul da Europa (ABAE) e ao qual a Escola de Enfermagem pertence desde 2018, tem sido um farol para a comunidade escolar implementar planos de ação ecológica.
Focado nos temas do ano — Ação Climática e Espaços Exteriores — bem como na preservação e regeneração da biodiversidade, o projeto dinamiza iniciativas práticas de enorme impacto comunitário que alertam para o facto de os resíduos deixados nas sarjetas irem parar diretamente aos oceanos. A comunicação simples, mas com base científica, como a monitorização do ar ainda agora exposta na nossa Escola, são a prova real que o Eco-Escolas ensina as comunidades a agirem de forma consciente e construtiva.
Esta consciencialização ambiental ganha ainda maior dimensão se olharmos para a nossa Instituição como sendo do setor da saúde. A Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Lisboa tem-se destacado como uma instituição profundamente ativa na promoção de uma comunidade sustentável, reconhecendo a ligação direta entre um ambiente doente e a degradação da saúde humana. Mais do que debater, a instituição publica informações, artigos e estudos focados nas dinâmicas de saúde ambiental, dotando os futuros enfermeiros e a comunidade envolvente de competências críticas para mitigar os impactos das alterações climáticas na saúde pública. Ao incentivar a adoção de cuidados de saúde mais ecológicos e práticas diárias sustentáveis no campus, a Escola estende a sua missão de cuidar, para além da pessoa, do maior dos doentes: o nosso planeta.
 

Neste Dia Mundial do Ambiente, as diretrizes da ONU cruzam-se com os propósitos das Eco-Escolas e o rigor científico e humano da Escola Superior de Enfermagem. A mensagem partilhada por todos é unânime e clara: combater a crise ambiental não é uma escolha, é um dever coletivo, urgente. É tempo de agir, agora e entre todos.

O que podemos fazer para desacelerar a crise?
Embora as grandes decisões políticas e macroeconómicas desempenhem um papel estrutural, a inversão deste estado de alerta depende crucialmente de mudanças de comportamento coletivas e individuais. Os nossos pequenos gestos podem e devem continuar e persistir:
 

  • Economia Circular: Reduzir o desperdício, reutilizar materiais e encaminhar corretamente os resíduos (como pilhas, embalagens).

  • Consumo Consciente: Optar por produtos locais, apoiar a bioeconomia e reduzir o desperdício alimentar.

  • Preservar a Água e Energia: Otimizar o consumo de recursos hídricos e privilegiar formas de energia limpa e eficiência energética.

  • Regenerar o Espaço Envolvente: Participar no restauro da flora, criar hortas biológicas e proteger os ecossistemas locais.

 

Dia 5 de junho de 2026, Dia Mundial do Meio Ambiente, a pergunta impõe-se, como no começo deste artigo:
Será que queremos um mar com mais plástico do que peixes?

 

Fontes:
Eco-Escolas, ONU


Notas da imagem: Árvore plantada por estudantes e Presidência, no Dia da Terra.

imagem de árvore a nascer